Mulher de Branco ganha documentário que tenta desvendar os mistérios da andarilha



Mesmo antes que Anamaria de Carvalho, conhecida como A Mulher de Branco de Ipanema, se sente à mesa do bar, o produtor de cinema Álvaro Saad Peixoto pede uma sobremesa para ela: brownie de chocolate com “sorvete e bastante calda”. O diretor Chico Canindé chega em seguida com ela e se apressa em pedir o prato, até saber que ele já estava a caminho. Ele e Álvaro já conhecem os hábitos e gostos de Ana — que incluem fumar vários cigarros por dia e tomar Fanta uva — graças à convivência por dois anos e meio com ela, tempo que levou para a dupla realizar o documentário ‘Anamaria — A Mulher de Branco de Ipanema’.

De tanto ser vista andando pelo bairro, Anamaria se tornou um símbolo dele. “Eu a conheço de vista há muito tempo. Em 1994, estava no calçadão quando ela apareceu, toda de branco, olhou para mim e me deu uma flor. Fiquei abalado”, lembra Chico. “Em 2009, resolvi fazer o filme. Sabia que ela ficava em frente ao Rex (bar na rua Vinicius de Moraes), liguei para lá e pedi para falar com ela, me apresentei como jornalista e ela começou falando inglês”, conta.

Filha do radialista Luiz de Carvalho, Anamaria foi casada com o cantor Marcos Valle de 1965 a 1969, época em que viveu fora do País, foi cantora (‘Samba de Verão’, grande sucesso de Marcos, tem vocais dela, que também cantou com Sérgio Mendes) e trabalhou como modelo.

Depois, Anamaria voltou para o Rio e tornou-se uma andarilha, chamando a atenção pelo visual exótico. Os motivos que a levaram a viver em um mundo paralelo seguem sendo um mistério. “Há quem diga que ela ficou assim pelo uso de drogas, ou por dor de amor. Não quis entrar nesse mérito porque perderia o encanto”, diz Chico. Aos 64 anos, ela vive em um apartamento no bairro, onde tem uma acompanhante, e tinge os fios no Werner.

Atualmente se vestindo de azul, ela brinca com sua atração pela cor branca. “Tenho uma amiga que diz: ‘O único dia em que você está comum é no Réveillon, porque todo mundo está de branco’”, diz Anamaria, justificando por que não anda frequentando a praia. “São ordens celestiais. Eu só obedeço. Tenho postura suíça: não sou contra nem a favor”, diz, emendando com uma gargalhada.

Anamaria antes de perambular por Ipanema

‘Ela adotou uma maneira de viver poética’, diz Lobão

Produzido de forma independente, o documentário ‘Anamaria — A Mulher de Branco de Ipanema’ vem sendo apresentado em sessões especiais. No filme, o diretor entrevista pessoas que convivem ou conviveram com Anamaria, como o cantor Lobão e a atriz Guilhermina Guinle.

O filme traz na trilha três faixas gravadas por Anamaria em Buenos Aires, em 1974: ‘Rebuliço’, ‘Suco de Tomate Frio’ e ‘Movimento do Ar’, além da música-tema ‘Mulher de Branco’, de Pedro Lenz, gravada por Nana Carneiro.

No filme, Lobão tenta definir a trajetória de Anamaria: “Ela é uma pessoa que adotou uma maneira de viver poética”. A preferência pela cor branca também é justificada pela protagonista do documentário. “É por ser uma cor com uma energia boa e que fotografa bem”, comenta Anamaria, que aparece dançando, livre, leve e solta, na Praia de Ipanema.

(matéria publicada hoje no jornal O Dia).

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