Idéia radical

‘O que falta para nós, brasileiras, sentirmos o poder que já temos?’

Lançando o livro Corpo, envelhecimento e felicidade, a antropóloga Mirian Goldenberg deu uma ótima entrevista à TPM. Destaquei alguns trechos que achei muito bons:

O que mais me intriga é a questão do poder. Quero entender o que falta para nós, brasileiras, sentirmos o poder que temos. Porque a mulher já tem o poder objetivo: no trabalho, em casa, tem independência financeira. Mas sente uma miséria subjetiva, um vitimismo. Quando fui para a Alemanha fazer uma conferência sobre o corpo, tive um choque cultural que foi o grande clique da minha vida. As alemãs têm casas, carros, viajam, casam ou não, têm filhos ou não, e chegam aos 60 anos felizes. São poderosas subjetivamente também.

(…)

A sociedade está introjetada na mulher. A antropologia ajuda a compreender que o que você pensa ser um fracasso individual na verdade é um problema coletivo, cultural. Quando você está sofrendo porque engordou, porque o marido te trocou… tem um monte de mulher sofrendo pela mesma coisa. Saber disso dá uma noção de que não é um desvio individual. 

(…)

Qual a maior queixa das mulheres em relação aos homens?
Trabalho com as camadas médias, mais intelectualizadas, que têm mais informação e contato com a psicanálise. Nessa elite, elas falam da impossibilidade de ter intimidade com o parceiro e que os homens não sabem escutar. Enquanto os homens falam que as mulheres não sabem compreender.

Você se identifica com esses depoimentos?
Muito. Com a queixa masculina e a feminina. Acho difícil compreender os homens, projetar as necessidades masculinas. E também tenho um anseio enorme de ter intimidade e uma escuta que às vezes é impossível para eles, que não entendem o que estamos falando. Não entendem uma escuta sem julgamento, sem falar logo uma solução, sem que racionalmente tentem resolver o problema. Os homens não conseguem transpor essa barreira, e as mulheres não conseguem compreender por que eles não conseguem. Então, cobram. Já saquei que essa falta não vai ser preenchida por homem nenhum. Vou ter que resolver comigo mesma, aceitando ou criando mecanismos para não sofrer com essas faltas. Mas as mulheres de modo geral ainda acreditam que eles são capazes de corresponder a todas as demandas.

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