Caetano Veloso faz minitemporada do novo show

Caetano Veloso

Caetano Veloso estreou ontem, no Circo Voador, o aguardado show do disco ‘Abraçaço’, terceiro da trilogia com a Banda Cê, lançado ano passado. Entrevistei o artista para o Guia Show & Lazer, suplemento do jornal O Dia publicado hoje. Aqui, a íntegra toda a entrevista.

‘Abraçaço’ tem canções mais intimistas, lentas. Os arranjos do show serão iguais aos do disco? Ou mais pesados?
Os arranjos serão basicamente os mesmos do disco.

O disco tem pelo menos cinco (ou seis, se incluirmos ‘Estou triste’) canções de amor, algumas delas um tanto melancólicas. Foram compostas num período de tristeza afetiva? São autobiográficas?
Eu já disse que todas as minha músicas são autobiográficas — mesmo as que não são. Mas canções de amor são o que as canções mais são, sempre. Mas ‘Vinco’ e ‘Quando o galo cantou’ são canções afirmativas. Sem lamúrias. Isso sem falar em ‘Parabéns’, que é uma celebração, ou ‘O império da lei’, que é uma canção de luta e profecia. Estou certo de que a Dolores Duran era, como eu gosto de ser, piadista e amante da vida: as canções de dor de cotovelo podem ter tido base em experiências reais, mas estavam mais presas ao estilo dos samba-canções da época. ‘Estou triste’ foi escrita num momento em que eu estava triste. Há melancolia em ‘Abraçaço’ (apesar da festa contida na palavra). Mas tudo passa.

O disco, por sinal, foi muitíssimo bem-recebido. Acredita que a tristeza é mais prolífica e produz coisas mais bonitas que a felicidade (risos)?
Não acredito nisso. Mas me impressiona que esse disco tenha sido tão bem recebido. Antigamente as músicas brasileiras (e latinoamericanas em geral) só podiam tratar de amores tristes, que não davam certo. As canções americanas, ao contrário, eram majoritariamente afirmativas do sucesso amoroso. Mas desde os anos 1970 que isso mudou no Brasil. Com Los Hermanos, o amor fracassado e os lamentos voltaram, Foi bonito. E sutilmente irônico. Mas ouça os pagodes românticos: são afirmação da realização amorosa e sexual.

‘Abraçaço’ é considerado um grande disco por boa parte dos seus fãs. Considera ele um dos grandes da sua obra?
Até estrangeiros acham que é meu melhor disco desde ‘Livro’. Eu não entendo. Acho bom, mas sou mais ‘Cê’. Talvez o relaxamento e a despretensão tenham cativado. Vamos ver como as pessoas reagem às canções no show.

Logo depois do lançamento do disco, fez sucesso um vídeo antigo em que você diz: “Chico Buarque é foda. Eu sou foda. A verdade é essa. Milton Nascimento é foda. Gilberto Gil é foda. Djavan é foda”, e por aí vai. Ainda se irrita com críticas que considera injustas?
Eu acho que ali eu estava falando de um grupo de jornalistas que acreditavam comandar a cena cultural brasileira e se ressentiram da importância que ganharam os compositores a cantores populares a partir do final dos anos 1960. ‘A bossa nova é foda’ é um grito de guerra que vai a algo mais fundo do que isso. E não tem nada a ver com irritação.

Quando foi a última vez que subiu ao palco do Circo Voador? E a última vez que fez um show seu lá (caso a última vez no Circo tenha sido uma participação numa apresentação de alguém)?
Não me lembro. Acho que foi com a Orquestra Imperial, numa homenagem à memória de Nelson Jacobina. Cantei no Circo inúmeras vezes. Fiz o ‘Cê’ lá. Fui assistir Gal. Fiquei danado da vida porque perdi James Blake. É sempre ótimo.

E o que acha do Circo como casa de shows?
Tem magia, histórico, clima. Desde os tempos de Perfeito Fortuna (que criou sua lenda) o Circo é um lugar não careta. E essa estrutura arredondada com ferros é muito bonita. A plateia fica desencanada.

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